A Turquia está em crise, com uma economia em colapso, uma lira desvalorizada e uma inflação crescente. Agora, para piorar, o presidente Erdogan acabou de jogar gasolina na crise, criando um enorme incêndio político.
A nação turca há muito tempo é apontada pelas elites ocidentais como o exemplo ideal de secularização política. O kemalismo, que englobava as reformas seculares impostas pelo líder original da Turquia, Kemal Atatürk, incluiu medidas extremas, como a introdução de um alfabeto baseado no latim, rompendo os turcos com suas tradições literárias árabes, além da proibição de vestimentas islâmicas tradicionais.

No entanto, tais esforços de secularização ocidental nunca se enraizaram profundamente na cultura turca. Como um escritor certa vez afirmou: a Turquia moderna é um estranho amálgama de estruturas ocidentais sustentadas por hábitos otomanos.
Com a mudança civilizacional que tem ocorrido ao redor do mundo nas últimas décadas, era inevitável que esses hábitos otomanos ressurgissem. E foi nesse contexto que surgiu Recep Tayyip Erdoğan, o presidente da Turquia.
Por 20 anos, Erdoğan e seu partido, o AKP, têm direcionado a Turquia para se tornar um estado islâmico em muitos aspectos, um Império neo-otomano. Um exemplo disso é a islamização de grande parte do sistema educacional nacional. Antes de Erdoğan, a educação tendia a menosprezar o Império Otomano e incentivava os alunos a enxergar o secularismo ocidental como progressista e esclarecido. Agora, no entanto, o Império Otomano é ensinado como uma sociedade ideal, repleta de uma cultura islâmica enriquecedora que, por si só, representa o futuro.
Erdoğan parece estar muito mais interessado em transformar a Turquia em uma federação neoanatólica de etnias muçulmanas do que em uma república secular e democrática de cidadãos turcos. Alguns até argumentam que essa transformação pode, eventualmente, levar a um renascimento do califado.
O problema para Erdoğan, porém, é que a economia turca está em colapso, e ele se mostra incapaz de resolver os problemas financeiros do país. Isso abriu espaço para a ascensão de Ekrem İmamoğlu, o prefeito de Istambul, que se apresenta como uma alternativa viável a Erdoğan e promete resolver a crise econômica de uma vez por todas. Sua popularidade cresceu dramaticamente, e todas as pesquisas recentes apontam para isso.
Mas então, em 19 de março, esse popular prefeito de Istambul e principal rival de Erdoğan foi preso pela polícia turca sob acusações de corrupção, extorsão, suborno, lavagem de dinheiro e apoio ao terrorismo – especificamente ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), uma organização política militante curda que atua na Turquia, Síria e Iraque.
O mais curioso, e suspeito, é que um dia antes de sua prisão, a Universidade de Istambul revogou o diploma de Ekrem İmamoğlu, o que o desqualificaria para disputar a corrida presidencial. Logo depois, ele e membros de seu partido foram detidos.
Agora, isso é apenas uma parte de uma grande repressão à oposição política em todo o país por parte do presidente Erdoğan. O que estamos testemunhando nada mais é do que sua última tentativa desesperada de permanecer no poder.
E, ao que tudo indica, essa estratégia não está funcionando. Multidões de centenas de milhares em Istambul, e milhões em todo o país, estão protestando contra a decisão de Erdoğan, aumentando ainda mais a simpatia pública por İmamoğlu e reforçando a narrativa de que Erdoğan não passa de um ditador autoritário.

Curiosamente, o que está acontecendo com İmamoğlu é muito semelhante à maneira como o próprio Erdoğan chegou ao poder. Ele também começou como prefeito de Istambul e viu sua popularidade disparar após ser preso — novamente, sob acusações questionáveis — pelo partido governante da época, que temia sua ascensão. É interessante observar como a história se repete.
Mas, e agora? A julgar pelo tamanho dos protestos, Erdoğan parece ter cometido um grave erro de cálculo político. Prender seu principal opositor não ajuda em nada quando ele já falhou em solucionar a crise econômica, que só faz piorar. O povo busca uma alternativa. Tentar eliminá-la só a tornará mais forte, algo semelhante ao que ocorreu com o ex-presidente Donald Trump.
Geopoliticamente, as consequências dessa instabilidade na Turquia são extremamente significativas. A guinada islâmica de Erdoğan aproximou o país da Rússia neo-ortodoxa, em oposição ao Ocidente secular. Ainda assim, como membro da OTAN, Erdoğan sempre gostou de jogar com ambos os lados — Oriente e Ocidente, garantindo que a Turquia, ou melhor, ele próprio, fosse o principal beneficiário desse jogo de equilíbrio.
Agora, no entanto, a ascensão de uma alternativa política viável na figura do prefeito Ekrem İmamoğlu pode significar que, se esse novo partido chegar ao poder, esse ato de equilíbrio penderá decisivamente para o Ocidente. A Turquia se afastaria cada vez mais da Rússia, do Irã e da China, buscando fortalecer seus laços com a Europa e a União Europeia. E, dada a atual fragilidade política de Erdoğan, parece improvável que o Ocidente desperdice essa oportunidade de finalmente tentar removê-lo.
Ao mesmo tempo, Erdoğan pode ter queimado sua última ponte com a Rússia e o Irã, especialmente porque ambos apoiaram fortemente Bashar al-Assad na Síria, enquanto a Turquia fez de tudo para derrubá-lo. Dessa forma, Erdoğan parece estar cada vez mais isolado.
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Ele se colocou, francamente, em uma posição sem aliados que possam ajudá-lo a escapar dessa turbulência política. Assim, a Turquia pode rapidamente abandonar seu caminho islâmico e, em vez disso, realinhar-se com o Ocidente. Teremos que aguardar para ver.
De qualquer forma, parece que a tendência de Erdoğan de jogar dos dois lados, Leste e Oeste, acabou apenas por afastá-lo de ambos. O futuro de seu regime parece sombrio.
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